BRASIL – O antropólogo Michel Alcoforado afirma que o fascínio por ricos no Brasil decorre de uma crença de mobilidade que não se confirma. A fala ocorreu em entrevista publicada nesta segunda-feira (20). O pesquisador é doutor pela UERJ e fundador da Consumoteca. A conversa foi exibida pela BBC News Brasil. O autor sustenta que a ideia de riqueza no país se apoia em performance e domínio de códigos, o que ajuda a naturalizar posições de poder.
Alcoforado ganhou o apelido de “antropólogo do luxo” após investigar impactos do consumo na vida no país. Atua como comentarista na CBN e apresenta o podcast “É Tudo Culpa da Cultura”. O foco do trabalho são práticas e valores dos muito ricos e os efeitos sobre a sociedade.
O autor defende que renda e patrimônio não bastam para definir quem é rico no Brasil. Afirma que a elite estabelece fronteiras por códigos de comportamento, circulação e linguagem. A obra “Coisa de Rico: A Vida dos Endinheirados Brasileiros” descreve esses marcadores e as estratégias que preservam desigualdades.
O livro alcançou mais de 37 mil cópias em dois meses e chegou à sétima tiragem. A primeira tiragem esgotou antes do lançamento, conforme registros de divulgação do texto da BBC replicados por veículos e perfis oficiais.
O pesquisador compara a lógica brasileira com a norte-americana. Nos EUA, a narrativa de riqueza valoriza a “construção” e o percurso. No Brasil, a elite associa riqueza a “conquista” e omite trajetórias. Essa leitura, segundo ele, reforça a naturalização de hierarquias e sustenta distâncias sociais.
Alcoforado aponta que brasileiros acompanham a vida de milionários por duas razões. A primeira é a crença de que todos um dia ficarão ricos. A segunda é a tentativa de imitar hábitos para sinalizar status, mesmo sem alta renda. O autor relaciona esse comportamento à manutenção de diferenças entre grupos.
“Aqui a gente gosta de rico. Gostamos de saber dos ricos porque, de algum modo, todo mundo imagina que em algum momento ficará rico”, disse o antropólogo na entrevista. Para ele, “dinheiro é só um pedaço da conversa”; o restante envolve “performar” riqueza.





