Acordo entre UE e Mercosul ganha peso para o agro brasileiro em meio a limites da China às importações

O tratado, em negociação há mais de duas décadas, passou a ser visto como ferramenta de diversificação de mercados e de redução da dependência de um único grande comprador, além de oportunidade para ampliar exportações com maior valor agregado para um bloco com ambiente regulatório mais previsível.

MUNDO – Um possível avanço do acordo comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul passou a ter relevância maior para o agronegócio brasileiro em um momento em que a China, principal destino da carne bovina do país, definiu cotas e tarifas mais rígidas para as compras do produto. O tratado, em negociação há mais de duas décadas, passou a ser visto como ferramenta de diversificação de mercados e de redução da dependência de um único grande comprador, além de oportunidade para ampliar exportações com maior valor agregado para um bloco com ambiente regulatório mais previsível.

Os dados mais recentes indicam que a UE já ocupa posição central nas vendas externas do agro brasileiro, mesmo sem o acordo em vigor. De janeiro a novembro de 2025, as exportações agropecuárias para o bloco somaram US$ 22,89 bilhões, abaixo dos US$ 27,71 bilhões registrados no mesmo período de 2024, mas ainda equivalentes a 48,5% de todas as vendas externas do setor para mercados além de China e Estados Unidos. Entre os produtos, carne bovina, frango, café, soja e celulose se destacam como principais frentes de embarque.

A carne bovina brasileira destinada à União Europeia movimentou US$ 820,15 milhões de janeiro a novembro de 2025, valor 83,2% maior que o do mesmo período do ano anterior, atrás apenas de China e Estados Unidos como destino em faturamento. No caso da carne de frango, o bloco europeu foi o sexto principal mercado, com US$ 457,99 milhões exportados no período. No café verde, a UE se consolidou como principal destino, com US$ 6,43 bilhões em vendas nos 11 primeiros meses de 2025, cifra US$ 1,22 bilhão superior à observada em 2024.

No complexo soja, a União Europeia figurou como terceiro maior mercado, com embarques próximos de US$ 6 bilhões. Na celulose, mesmo com recuo de 12,9% nas exportações, o bloco seguiu como segundo maior destino, respondendo por 21,1% do total, com receitas de US$ 1,98 bilhão. Com a entrada em vigor do acordo, está prevista redução ou eliminação de tarifas para produtos como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose, o que tende a elevar a competitividade brasileira nesses segmentos.

Para tentar reduzir resistências internas, principalmente de agricultores de países como França, Itália e Hungria, a Comissão Europeia apresentou proposta de corte nas tarifas de importação de alguns fertilizantes usados na agricultura do bloco. O plano prevê zerar a tarifa padrão de 6,5% sobre a ureia e de 5,5% sobre a amônia, dois insumos essenciais na produção europeia. A UE também avalia permitir suspensão temporária da taxa de carbono na fronteira (CBAM) para determinados produtos, medida que poderia aliviar custos de curto prazo para produtores rurais europeus.

Ao mesmo tempo, o bloco europeu reforça salvaguardas para limitar impactos internos do acordo. Um dos mecanismos previstos é um “gatilho automático” que permite abrir investigações e adotar medidas corretivas, como reintrodução temporária de tarifas ou limitação de volumes, caso as importações agrícolas do Mercosul cresçam mais de 8% em relação ao ano anterior. Esse percentual foi definido como meio-termo político entre propostas de 5% e 10% e afeta principalmente cadeias consideradas sensíveis na Europa, como carne bovina, frango e açúcar.

As cláusulas ambientais seguem como ponto de tensão nas conversas, com exigências relacionadas ao combate ao desmatamento, rastreabilidade da produção, cumprimento de regras sanitárias e compromissos climáticos internacionais. Essas condições elevam custos de adequação e tendem a favorecer produtores de maior porte, que contam com estrutura para atender às exigências. Ainda assim, especialistas avaliam que o cumprimento dessas normas pode se transformar em diferencial competitivo de longo prazo para o Brasil, caso seja incorporado à estratégia comercial.

No campo político, a negociação enfrenta resistência de parte do setor agrícola europeu, sobretudo em países onde há forte tradição rural e receio de concorrência de produtos do Mercosul com custos de produção menores. Produtores europeus argumentam que as regras ambientais e trabalhistas no bloco são mais rígidas e temem desequilíbrio competitivo com a entrada de maiores volumes de alimentos sul-americanos. Manifestações e bloqueios em estradas vêm sendo usados como forma de pressão sobre governos nacionais e instituições comunitárias.

Enquanto a discussão avança na Europa, a China implementa a partir de 1º de janeiro de 2026 um sistema de cotas para carne bovina que cria um teto inicial de 1,106 milhão de toneladas com tarifa de 12%. Volumes que ultrapassarem essa cota estarão sujeitos a sobretaxa de 55%, levando a uma tarifa total de 67%, o que reduz a margem de rentabilidade das exportações excedentes. Em 2025, as compras chinesas de carne bovina brasileira somaram cerca de 1,7 milhão de toneladas, equivalentes a 48,3% de todo o volume exportado pelo Brasil, o que evidencia o grau de dependência do mercado chinês.

Entidades como a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) avaliam que as mudanças impostas pela China exigirão ajustes na cadeia produtiva. A orientação é buscar diversificação de destinos, reorganizar fluxos de exportação e ampliar presença em mercados com maior valor agregado, como União Europeia, Oriente Médio e outros países asiáticos. Nesse contexto, o acordo UE–Mercosul passa a ser interpretado como parte central da estratégia para evitar impactos mais amplos sobre pecuaristas e exportadores brasileiros.

Especialistas como o professor Marcos Jank, do Insper Agro, apontam que a disposição europeia em avançar com o acordo está ligada a fatores geopolíticos, como a necessidade de fortalecer alianças diante da aproximação entre Rússia e China e do reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina. A UE enxerga o Mercosul também como parceiro estratégico em temas de segurança alimentar e geopolítica, não apenas no comércio agrícola. Já o ex-embaixador Rubens Barbosa avalia que parte da resistência europeia reflete conflitos internos entre produtores tradicionais e emergentes na UE, em que o Brasil acaba exposto como alvo externo dessas disputas.

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