MUNDO – O relatório mundial de 2026 da organização Human Rights Watch (HRW), divulgado nesta quarta-feira (4), afirma que 72% da população do planeta vive sob regimes autoritários e descreve um cenário de “avanço autoritário” no mundo, impulsionado em parte pela atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O documento analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países e cita estudos segundo os quais a democracia voltou a níveis semelhantes aos de 1985, com Rússia, China e também os próprios Estados Unidos considerados menos livres do que há duas décadas.
A HRW utiliza, entre outras fontes, o estudo “25 Anos de Autocratização – A Democracia Triunfa?”, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, publicado em 2025, que classifica quase 200 países em seis categorias: autocracia fechada, autocracia eleitoral, autocracia zona cinzenta, democracia zona cinzenta, democracia eleitoral e democracia liberal. Autocracias fechadas não realizam eleições multipartidárias e restringem liberdades básicas, como expressão e associação, enquanto autocracias eleitorais têm eleições com partidos, mas sem níveis suficientes de liberdade e justiça no processo. Democracias eleitorais reúnem eleições multipartidárias livres e justas e garantias razoáveis de sufrágio e liberdades civis, e democracias liberais acrescentam a esse modelo freios mais fortes ao Executivo, proteção ampliada de liberdades civis e igualdade perante a lei.
Segundo essa classificação, o Brasil aparece como “democracia eleitoral”, enquanto Estados Unidos, França e Espanha são considerados “democracias liberais”. Já a Rússia é identificada como “autocracia eleitoral” e a China, como “autocracia fechada”, com ambiente político mais restritivo e concentração de poder.
O relatório afirma que o primeiro ano do novo mandato de Trump representou um “avanço autoritário” e sustenta que o governo americano “encorajou líderes autoritários e minou aliados democráticos”. A HRW cita episódios em que Trump criticou líderes eleitos da Europa Ocidental enquanto demonstrava admiração por movimentos de extrema direita nativista. A ONG também aponta “pressão implacável” de China e Rússia contra direitos humanos em escala global, em paralelo às ações de Washington.
A organização questiona se “os direitos humanos sobreviverão à era Trump” e descreve o mandato atual como marcado por “grave desrespeito” e “graves violações” desses direitos. Entre as medidas que, segundo o relatório, colocam “em perigo” o sistema internacional de proteção de direitos humanos, estão o ataque militar e captura de Nicolás Maduro na Venezuela, a deportação e envio de imigrantes para prisões em El Salvador com atuação de agentes do ICE, questionamentos à independência judicial dentro dos EUA, tentativas de minar a confiança no processo eleitoral, uso de estruturas de governo para “intimidar oponentes políticos”, saída do Conselho de Direitos Humanos da ONU, cortes em programas de assistência alimentar e subsídios de saúde e a retirada de proteções a pessoas trans e intersexuais.
Como resposta ao cenário descrito, a HRW defende que países que ainda valorizam direitos humanos, junto com movimentos sociais, organizações da sociedade civil e instituições internacionais, formem uma “aliança estratégica” para conter retrocessos e preservar uma ordem internacional baseada em leis. Segundo o diretor-executivo da ONG, Philippe Bolopion, governos e atores sociais precisam se posicionar contra a postura de Trump, bem como contra iniciativas de Rússia e China que fragilizem normas e instituições de direitos humanos.
No capítulo dedicado ao Brasil, a HRW aponta a segurança pública como tema central e destaca a influência de facções criminosas no país, inclusive com articulações dentro do Estado. A ONG recomenda investigações aprofundadas, orientadas por inteligência, para mapear vínculos entre organizações criminosas e agentes públicos, inclusive políticos em nível local. O relatório afirma que facções cooptam servidores para proteger atividades ilícitas e alerta que essa infiltração pode “corromper as instituições por dentro”. A segurança aparece ainda como uma das principais preocupações do eleitorado brasileiro nas pesquisas de opinião mais recentes, e a ONG avalia que o tema terá peso relevante na eleição presidencial prevista para outubro.





