MUNDO – Um estudo confirma a transmissão de mutações genéticas nos filhos de trabalhadores expostos ao desastre nuclear de Chernobyl. Os pesquisadores identificaram aglomerados de mutações no DNA dessas crianças. Essas alterações resultam de danos causados pela radiação nos pais. O trabalho saiu na revista Scientific Reports. A análise ocorreu nesta terça-feira (17), com dados de sequenciamento genético.
Os cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, sequenciaram o genoma completo de 130 descendentes de trabalhadores da limpeza de Chernobyl. Esses pais atuaram na cidade de Pripyat ou como liquidadores no local do acidente. O grupo incluiu 110 filhos de operadores de radar militar alemão expostos à radiação dispersa. Como controle, usaram 1.275 descendentes de pais sem exposição à radiação.
O acidente aconteceu em 26 de abril de 1986, na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. A explosão do reator 4 liberou césio-137, iodo-131 e outros materiais radioativos. Mais de 2.600 km² ficaram contaminados. Milhares de pessoas evacuaram a região. Trabalhadores enfrentaram radiação ionizante para conter o vazamento.
A radiação gerou espécies reativas de oxigênio nos corpos dos trabalhadores. Essas moléculas romperam cadeias de DNA nas células espermáticas em desenvolvimento. O reparo inadequado deixou aglomerados de mutações de novo em cluster, ou cDNMs. Duas ou mais mutações agrupadas aparecem nos filhos, mas não nos pais.
Em média, o estudo encontrou 2,65 cDNMs por criança no grupo de Chernobyl. No grupo alemão do radar, o número foi 1,48 por criança. No controle, ficou em 0,88 por criança. Os valores podem conter superestimação por ruído nos dados. Após ajustes estatísticos, a diferença permaneceu significativa.
Os autores notaram uma possível ligação entre a dose estimada de radiação nos pais e o número de cDNMs nos filhos. Até este trabalho, estudos anteriores ficavam inconclusivos sobre herança de danos genéticos. Essa pesquisa foca em mutações agrupadas, não em novas mutações isoladas.
Pesquisadores estimaram a exposição com registros históricos e dosímetros antigos. A participação foi voluntária, o que pode gerar viés de seleção. Pessoas com suspeita de exposição talvez tenham se inscrito mais. Apesar das limitações, o estudo prova traços sutis de radiação em gerações futuras.
O risco de doenças ligadas a essas mutações mostra-se baixo. A exposição prolongada exige precauções de segurança e monitoramento contínuo para grupos em risco. O achado reforça efeitos de longo prazo do desastre de Chernobyl.





