O cultivo de cacau na Comunidade da Missão, no município de Tefé, a 523 quilômetros a oeste de Manaus, começou antes mesmo das pessoas que hoje vivem ali. Sem acesso fácil a mercados e sem dinheiro para comprar alimentos, avós e pais da coordenadora do Grupo de Agricultores Orgânicos da Missão, Bernardete Araújo, conhecida na região como Dona Bete, produziam tudo o que consumiam. O que antigamente era feito majoritariamente para o uso próprio da família se transformou, com o tempo, em uma cadeia comercial sustentável baseada no cacau, matéria‑prima que, na proximidade da Páscoa, passa a virar barras e ovos de chocolate artesanal.
Todo o cacau e o chocolate produzidos pela organização resultam do trabalho de 22 mulheres da comunidade. Para Bernardete, o cultivo sempre esteve presente na história local. “O cultivo nasceu antes de nós. Quando nós nos tornamos gente, já tínhamos o cultivo do cacau e de tantos outros alimentos. Hoje, apenas damos continuidade ao que aprendemos com as nossas famílias”, afirma. A produção do doce é feita de maneira simples, manual e sem uso de insumos sintéticos, em um modelo que se aproxima mais de uma cozinha tradicional do que de uma fábrica industrial.
Na infância de Dona Bete, o chocolate amargo preparado pela mãe era rotina. “Quando eu e meus irmãos íamos para a escola, ela dizia que nós tínhamos que tomar o chocolate para não sermos rudes, para absorver conhecimento com maior facilidade e para deixar nosso corpo mais forte”, conta. Essas histórias familiares foram um dos motivos que levaram à organização do grupo de agricultoras, que hoje une a tradição caseira de fazer chocolate à estruturação de uma cadeia produtiva mais organizada. Cada mulher cultiva seu próprio cacau, processo o grão em casa e elabora o chocolate à sua maneira, mantendo processos herdados de pais e avós.
A mãe de Dona Bete, por exemplo, quebrava o cacau, separava o suco, deixava o material secar ao sol, descascava e moía tudo manualmente. “Minha mãe fazia principalmente chocolate amargo. Nós não tínhamos açúcar e, quando ela queria adoçar o chocolate, ela usava garapa de cana. Então, o chocolate que ela fazia era o cacau, garapa, leite de castanha e ovos de galinha”, descreve. Hoje, o grupo segue etapas semelhantes de maneira padronizada, mas adaptada à vistoria técnica e às exigências de certificação.
O Instituto Mamirauá, organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), acompanha a produção das mulheres, prestando assessoria técnica, promovendo cursos de manejo agroecológico, apoiando etapas de certificação e facilitando o acesso a políticas públicas. “Por meio do assessoramento técnico, temos contribuído com o fortalecimento da produção orgânica, com apoio nas etapas de certificação e no acesso a políticas públicas”, explica Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do instituto.
A pesquisa aplicada na região do médio Solimões serve de base para reforçar práticas de manejo já praticadas pelas comunidades tradicionais. Segundo Fernanda, o conhecimento científico integra‑se ao saber popular das mulheres, permitindo que a ciência seja aplicada “na ponta”, ou seja, dentro da realidade local, ajudando a transformar modos de vida para algo mais condizente com as necessidades ecológicas e sociais da Amazônia.
Na prática, a produção do chocolate artesanal hoje passa por uma seleção mais cuidadosa das amêndoas de cacau. “Nós selecionamos muito bem os grãos do cacau e colocamos em um paneiro ou uma saca bem limpa e deixamos escorrer o mel por dois dias. Depois, cobrimos eles com uma folha de bananeira e deixamos secar no sol por seis dias para fazer a fermentação, para depois torrar e moer”, detalha Dona Bete. Depois desse processo, o cacau virou massa ou barra, que funciona como base para derivados, como bombons, barras e ovos de Páscoa.
Em 2021, o grupo conquistou a certificação orgânica, garante que os produtos não têm agrotóxicos, transgênicos ou fertilizantes químicos. A Comunidade da Missão tornou‑se a primeira iniciativa da região a receber esse reconhecimento, o que ampliou a confiança de clientes e marcas que compram o cacau e o chocolate artesanal das mulheres ribeirinhas. Atualmente, parte da produção já é vendida para empresas e marcas de alimentos, além do comércio próprio das comunidades de Tefé e da região.





