Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, foi aconselhado a fazer uma delação premiada à Polícia Federal, mas decidiu manter a estratégia de sustentar, com uma defesa de viés técnico, que as operações com o Banco Master eram vantajosas para o banco público, mesmo após a PF identificar indícios de documentos falsos e outras inconsistências na investigação. Ele foi preso nesta quinta-feira (16), em Brasília, por suspeita de receber propina e participar da organização criminosa ligada a Daniel Vorcaro, controlador do Master.
Segundo relatos reunidos pela reportagem, Costa se recolheu ao apartamento onde vivia, no Noroeste, desde que escapou de ser preso em novembro, na primeira fase da operação Compliance Zero. Apesar da pressão de familiares e dos alertas para que aceitasse a delação antes de o material apreendido na segunda fase perder valor para os investigadores, ele preferiu insistir na tese de que as compras de carteiras do Master e, depois, de parte do banco de Vorcaro, tinham racionalidade econômica e seguiriam padrões técnicos.
Costa nunca chegou a apresentar a delação, conforme integrantes da PF ouvidos pela reportagem. Ele alegava inocência e dizia estar abalado emocionalmente por questões familiares, entre elas o pedido de separação da esposa. Nesse período, passou a reunir relatórios financeiros, dados de fundos de investimento, contratos e documentos do BRB que levou consigo antes de ser afastado do banco, em um esforço descrito por interlocutores como meticuloso e obsessivo.
O ex-dirigente é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A investigação aponta que ele teria ocultado seis imóveis de alto padrão recebidos como propina, sendo quatro em São Paulo e dois em Brasília, com valor estimado em R$ 146,5 milhões. A PF também afirma que há evidências robustas de produção massificada de documentos artificiais, como planilhas, contratos, extratos, procurações e cláusulas de mandato, usados para dar aparência de legalidade a ativos sem lastro.
O advogado de Costa, Cléber Lopes, afirmou que o cliente não cometeu crime e classificou a prisão como exagerada. Ele disse ainda que não mudará a linha de defesa e que segue firme na convicção de que Paulo Henrique Costa não praticou crime algum. A reportagem informou também que, nas últimas semanas, a defesa havia apresentado manifestação técnica para sustentar que todas as decisões seguiram governança colegiada, boa-fé, padrões de mercado e racionalidade econômica.
A investigação sustenta que, com o avanço das apurações, a PF desmontou a tese apresentada pela defesa ao identificar diálogos extraídos dos telefones dos investigados e documentação apreendida que indicava inconsistências relevantes nas carteiras ofertadas. Os investigadores também apontam que as aquisições teriam sido aceleradas com flexibilizações procedimentais e pressão por liquidação rápida das operações, em aparente desprezo aos controles prudenciais do BRB.
O caso é tratado como um dos principais desdobramentos do escândalo Master. Conforme a investigação, o Banco Central também já havia identificado documentação falsificada e fabricada. A PF afirma ainda que houve vantagem indevida por meio da transferência dos seis imóveis para viabilizar a compra de carteiras consideradas fraudulentas.





