O varejo nacional entrou em estado de pânico e promete reagir com medidas extremas à última canetada do governo federal. Em uma entrevista explosiva ao NeoFeed, o CEO da Riachuelo, André Farber, disparou que a companhia pode ser forçada a demitir parte de seus 33 mil funcionários e a adotar uma estratégia radical de sobrevivência: transferir operações para a Ásia para usufruir da mesma isenção fiscal que beneficia gigantes estrangeiras como Shein, Shopee, Temu e AliExpress.
O estopim da crise foi a assinatura de uma Medida Provisória (MP) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite de terça-feira, 12 de maio, que revogou a chamada “taxa das blusinhas” — a alíquota de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 que funcionava desde agosto de 2024. A decisão unilateral do governo pegou o setor de surpresa e gerou revolta generalizada.
“Se a gente chegar à conclusão que esta decisão de acabar com a taxa das blusinhas será mantida, vamos ter que começar a demitir pessoas. Não tem milagre”, alertou Farber, lembrando que a Riachuelo conta hoje com 450 lojas no Brasil.
Guerra tributária: a “situação maluca” do mercado nacional
De acordo com o executivo, o fim da taxa elevou a assimetria tributária entre as empresas instaladas no Brasil e as plataformas asiáticas de 40% para insustentáveis 60%, criando o que ele ironiza como um verdadeiro “incentivo chinês”.
Farber detalhou o peso sufocante dos impostos sobre a indústria local em comparação com o comércio fronteiriço (cross-border): um casaco da Riachuelo que custa R$ 100 na fábrica sofre um impacto de 80% a 90% em impostos acumulados — incluindo 35% de taxa de importação sobre a matéria-prima trazida em contêineres, além de PIS/Cofins (elevando o custo para R$ 150) e a média de 20% do ICMS estadual. Com a nova MP, os sites estrangeiros voltam a pagar zero de imposto de importação, arcando exclusivamente com o ICMS.
O troco do varejo: debandada para o exterior e demissões
Caso o Palácio do Planalto não volte atrás na decisão, a Riachuelo não descarta usar as mesmas armas da concorrência internacional para garantir sua sobrevivência financeira no mercado em 2026.
“Nada nos impede de fazer cross-border. Eu instalo uma empresa lá (na Ásia), começo a trazer e mandar no formato de pequenos pacotes, que pagam muito menos impostos. Mas no momento que eu fizer isso, eu desmobilizo as operações no Brasil. E isso vai gerar ainda mais demissões. Nada está descartado”, cravou o CEO.
O executivo também detonou a narrativa oficial do governo, que justificou o fim do tributo como uma medida para democratizar o consumo. Para Farber, o argumento é raso e inválido: se o foco fosse o acesso a preços menores, o governo deveria promover a justiça fiscal reduzindo a pesada carga sobre a folha de pagamento e os empregos locais, em vez de incentivar indústrias instaladas fora do país. Questionado se a medida — somada ao fim da escala 6×1 e ao programa Desenrola — faria parte de um “pacote de bondades” eleitoreiro, o empresário foi categórico: “Isso é tão claro como a água é H2O”.
Sangria na Bolsa de Valores e investimentos em risco
A indignação da Riachuelo é endossada por cerca de 50 entidades do setor, que lançaram um manifesto alertando que a “destaxa” coloca em risco iminente um volume estimado em R$ 100 bilhões de investimentos no Brasil.
O mercado financeiro reagiu imediatamente ao decreto presidencial. No dia seguinte à revogação, as ações da Riachuelo, Lojas Renner e C&A despencaram na B3. Relatórios do banco BTG Pactual confirmam que a medida ampliará drasticamente o abismo de preços entre o varejo físico nacional e os sites internacionais. No acumulado do ano de 2026, os papéis da Riachuelo já acumulam uma queda expressiva de 11%, deixando a companhia com um valor de mercado fixado em R$ 4,2 bilhões.
Apesar de a empresa ter registrado uma sólida receita líquida de R$ 2,3 bilhões no primeiro trimestre deste ano (uma alta de 6,7%), o futuro operacional permanece nebuloso. Farber concluiu afirmando que o canal de diálogo com o governo segue aberto por meio do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) e da Associação Brasileira de Varejo Têxtil (Abvtex), mas expressou profunda estranheza pelo fato de o setor privado não ter sido consultado antes do anúncio da MP.






