RIO DE JANEIRO — Um dos momentos mais impactantes do julgamento que resultou na condenação do ex-vereador Jairo de Souza Santos Junior, o Jairinho, partiu do depoimento de sua ex-enteada, atualmente com 18 anos. Perante o corpo de jurados, a jovem relatou uma rotina de violência, ameaças e torturas psicológicas e físicas que sofreu quando tinha apenas 5 anos de idade, período em que sua mãe mantinha um relacionamento afetivo com o réu.
A acusação utilizou o relato para demonstrar que a morte de Henry Borel, de 4 anos, em março de 2021, não foi um fato isolado, mas o ápice de um padrão de comportamento sádico e violento direcionado por Jairinho contra crianças indefesas. Na madrugada da última quinta-feira (4), após 11 dias de sessão, o ex-político foi condenado a 43 anos e 9 meses de prisão em regime fechado.
Cenas de horror em motéis e fraturas ocultadas
Durante sua fala no Tribunal do Júri, a testemunha detalhou como o ex-vereador aproveitava momentos de ausência da mãe para praticar as agressões. Ela relatou que era levada por ele para motéis, locais onde ocorriam sessões de afogamento na piscina:
“Ele ficava me afundando até eu encostar no chão. Aí me soltava, eu respirava e ele me afogava de novo com o pé dele me empurrando até o chão várias vezes”, relembrou a jovem.
Em outro trecho do depoimento, a vítima explicou que Jairinho a agredia fisicamente de forma severa, chegando a apertar e torcer seu braço com tamanha força que ela precisou ser engessada em uma unidade médica. As agressões eram acompanhadas de chantagem emocional e manipulação: o réu afirmava que, caso ela revelasse a verdade, sua mãe ficaria “muito triste”, o que silenciou a criança por anos devido ao medo.
Revelação tardia e o sentimento de culpa
A mãe da jovem também prestou depoimento e confirmou aos jurados que só tomou conhecimento das torturas cerca de um ano após romper o relacionamento com o ex-vereador. A descoberta ocorreu por acaso, quando a filha, ao assistir a uma reportagem televisiva sobre violência infantil, desabou em choro e expôs os traumas guardados.
Linha do Tempo dos Fatos
├── 2013-2014 ──> Período das agressões sofridas pela ex-enteada (aos 5 anos).
├── 2015 ───────> Jovem revela os abusos à mãe após assistir a uma reportagem.
├── Março 2021 ─> Morte de Henry Borel; mãe e filha procuram a polícia e Leniel Borel.
└── Junho 2026 ─> Depoimento no Tribunal do Júri consolida condenação de Jairinho.
Após a ampla repercussão da morte de Henry Borel, em 2021, mãe e filha decidiram procurar as autoridades policiais e o pai do menino, Leniel Borel, para formalizar a denúncia. No tribunal, a jovem desabafou sobre o peso psicológico que carregou: “Eu me senti muito culpada, porque achei que, se a gente tivesse feito alguma coisa, se a gente tivesse falado, não teria chegado aonde chegou”.
Laudo médico contestou versão de acidente
Henry Borel deu entrada em um hospital da Zona Oeste do Rio no dia 8 de março de 2021, já sem vida. Os laudos do Instituto Médico-Legal (IML) foram categóricos ao apontar que o menino sofreu hemorragia interna e laceração hepática (fígado) causadas por ação contundente, lesões completamente incompatíveis com a versão apresentada por Jairinho e pela mãe do menino, Monique Medeiros, de que a criança teria sofrido uma queda acidental da cama.
Desfecho do julgamento e recursos judiciais
Apesar da condenação de Jairinho, o desfecho do caso gerou intensos debates jurídicos e indignação por parte de familiares de Henry:
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Situação de Jairinho: Permanece custodiado no Complexo Penitenciário de Bangu, onde iniciou o cumprimento da pena de mais de 43 anos por homicídio e tortura. Sua equipe de advogados informou que ingressará com pedido de anulação do júri.
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Absolvição de Monique Medeiros: A juíza Elizabeth Machado Louro concedeu perdão judicial a Monique, justificando que a ré foi alvo de uma “misoginia declarada” ao longo do processo. Monique já se encontra em liberdade.
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Protesto do pai: Leniel Borel criticou duramente a decisão em relação à ex-esposa, declarando textualmente que “a justiça matou o meu filho” por não punir os dois envolvidos. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) já recorreu da sentença, alegando que a magistrada alterou indevidamente a redação das perguntas formuladas aos jurados no momento da votação, induzindo o conselho de sentença a erro.






