PF investiga empresas ligadas à influenciadora Virginia Fonseca por movimentações suspeitas de R$ 22,4 milhões

Inquérito teve origem em dados da 'CPI das Bets'; relatórios do Coaf apontam transações incompatíveis com teto do Simples Nacional e defesa nega ilicitudes

SÃO PAULO — A Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito para investigar possíveis irregularidades fiscais e financeiras em empresas ligadas à influenciadora digital Virginia Fonseca. A abertura das investigações ocorre após relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontarem movimentações bancárias classificadas como atípicas, levantando suspeitas de potenciais manobras fiscais, inconsistências e indícios do crime de lavagem de dinheiro. Recentemente, a artista alcançou o posto de segunda mulher mais seguida do Brasil na rede social Instagram.

O ponto de partida para a atuação da PF decorre de documentos e dados bancários compartilhados pelo Congresso Nacional durante a “CPI das Bets”. Na ocasião, Virginia prestou esclarecimentos sobre contratos de publicidade firmados com plataformas de apostas online e informou que sua empresa de cosméticos, a “We Pink”, movimentou cerca de R$ 750 milhões ao longo do ano de 2023. Embora o relatório final da comissão parlamentar tenha sido rejeitado pelo Senado, o acervo documental colhido foi enviado e encampado pelas autoridades federais para a abertura da apuração.

Incompatibilidade tributária acende alerta

O principal foco do inquérito está concentrado na empresa Talismã Digital, de propriedade da influenciadora. Segundo os relatórios financeiros, a companhia recebeu o montante de R$ 22,4 milhões em um intervalo de apenas seis meses, entre março e setembro de 2024. Do total movimentado, R$ 21,4 milhões ingressaram via Pix e R$ 1 milhão por meio de transferências eletrônicas do tipo TED.

A maior parte desse montante — o equivalente a R$ 17,7 milhões — foi repassada por uma única processadora de pagamentos, a Amp Pay Marketing. A linha de investigação aponta uma grave inconsistência contábil: a Amp Pay encontra-se registrada sob o regime tributário do Simples Nacional, cujo teto de faturamento legal é limitado a R$ 4,8 milhões por ano. O fato de a parceira comercial repassar à empresa de Virginia um valor que supera em mais de três vezes e meia o seu próprio limite anual máximo permitido em lei acendeu os alertas dos investigadores.

Frentes de atuação da Polícia Federal

A Polícia Federal estruturou as investigações em três frentes de análise técnica:

  • Origem e destino dos fundos: Rastreamento para atestar se os repasses milionários correspondem a serviços publicitários efetivamente prestados ou se há simulação de contratos.

  • Incompatibilidade fiscal: Apuração sobre o uso de empresas com fluxo financeiro desconectado de suas respectivas faixas de enquadramento tributário.

  • Ocultação de bens: Verificação de possíveis indícios configuradores do crime de lavagem de dinheiro.

Defesa contesta acusações e nega vínculos ilícitos

Em nota oficial encaminhada ao programa Domingo Espetacular, da Record TV, a assessoria jurídica que representa Virginia Fonseca rebateu as suspeitas e sustentou a total legalidade das operações. Os advogados argumentam de forma técnica que a classificação de uma transferência bancária como “atípica” por órgãos de controle não se traduz, por si só, na existência de um ato ilícito.

A defesa negou de forma categórica qualquer ligação da marca “We Pink” com pessoas ou redes associadas ao crime organizado. O comunicado reforça que a empresa possui uma estrutura corporativa sólida, com sistemas próprios de governança, auditoria independente e atuação integralmente pautada no cumprimento da legislação brasileira vigente.

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