STF analisa recursos de Big Techs sobre regras de responsabilidade por conteúdo na internet

Google, Meta e X contestam tese de 2025 que alterou o Marco Civil da Internet; julgamento ocorre em meio à crise política provocada por decretos regulatórios de Lula

BRASÍLIA — O Supremo Tribunal Federal (STF) dá início, nesta quarta-feira (10), ao julgamento dos embargos de declaração — recursos que visam sanar omissões ou ambiguidades — protocolados por gigantes da tecnologia contra a decisão histórica da Corte que ampliou a responsabilidade civil das redes sociais sobre as publicações de seus usuários.

O processo, pautado pelo presidente do tribunal, ministro Edson Fachin, reabre a discussão sobre a tese fixada em 2025. Naquele ano, o STF declarou a inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil da Internet, derrubando a regra de que as plataformas só respondiam judicialmente por danos de terceiros se descumprissem uma ordem prévia de remoção emitida pelo Poder Judiciário.

O que pedem as empresas de tecnologia?

As Big Techs (incluindo Google, Meta e a plataforma X), representadas também por associações do setor, sustentam que o texto aprovado pelo STF possui lacunas que geram severa “insegurança jurídica”. As empresas apresentaram três pleitos principais:

  1. Prazo de transição (Vacatio Legis): As companhias demandam um período de adaptação antes que as penalidades financeiras entrem em vigor. Como base de comparação, citam as janelas de adequação adotadas internacionalmente e no próprio direito brasileiro:

Legislação / País Prazo de Adaptação Concedido
Reino Unido (Regulação de Internet) 17 meses
União Europeia (Digital Services Act) 15 meses
Japão (Regulação Digital) 11 meses
Brasil (Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD) 24 meses
Brasil (Estatuto da Criança e do Adolescente Digital) 6 meses
  1. Critérios de notificação rígidos: Para evitar abusos, o setor quer que as notificações extrajudiciais enviadas por usuários contenham obrigatoriamente a identificação civil do denunciante e a URL (endereço eletrônico exato) do conteúdo contestado.

  2. Filtro de ilicitude manifesta: As Big Techs argumentam que a obrigação de derrubada sem ordem judicial deve se restringir a postagens “manifestamente ilícitas” (como pornografia infantil ou apologia explícita ao crime). Elas alertam que termos vagos na tese atual induzem à moderação subjetiva, o que pode desencadear uma onda de remoções preventivas e consequente censura à liberdade de expressão.

Tendência interna do Supremo Tribunal Federal

Apesar da pressão corporativa, os bastidores do STF indicam que a essência da decisão de 2025 não será alterada. Segundo interlocutores da Corte, a tendência majoritária é de que os ministros aprovem apenas ajustes de redação e modulações técnicas para pacificar a interpretação do texto, sem recuar no mérito da responsabilização proativa das plataformas.

O cruzamento com a crise dos decretos do Executivo

O julgamento ganha forte conotação política por coincidir com uma crise institucional entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. No fim de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou dois decretos presidenciais que endurecem as obrigações de monitoramento das Big Techs, focando no combate a golpes financeiros e crimes de alta gravidade (terrorismo, violência de gênero e exploração infantil).

O Choque Regulatório no Ambiente Digital
├── Executivo (Lula) ──> Editou decretos com punições automáticas para anúncios criminosos pagos.
├── Legislativo ────────> Reagiu com mais de 30 Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) para anular os atos.
└── Judiciário (STF) ───> Julga recursos que balizam os limites jurídicos dessas punições.

A reação do Poder Legislativo foi imediata. Parlamentares de oposição protocolaram mais de 30 Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) com o intuito de anular os atos do Executivo, sob o argumento de que Lula invadiu a competência do Congresso ao legislar via decreto sobre matérias que ainda tramitam na Câmara e no Senado. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), acionou a consultoria jurídica da Casa para avaliar a constitucionalidade dos atos presidenciais.

Paralelamente, juristas independentes demonstram preocupação com o alinhamento das duas medidas, alertando que o temor de pesadas sanções administrativas ou judiciais simultâneas pode forçar as empresas de internet a limar debates políticos legítimos das redes sob o pretexto de prevenção de riscos.

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