BRASIL – Três técnicos de enfermagem foram presos suspeitos de provocar a morte de pacientes na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga, no Distrito Federal. A Polícia Civil investiga a aplicação irregular de altas doses de medicamentos e o uso de desinfetante na veia de ao menos uma vítima, em casos registrados entre 17 de novembro e 1º de dezembro de 2025. As prisões ocorreram após o hospital identificar situações consideradas atípicas na unidade intensiva, abrir investigação interna e comunicar a polícia, que reuniu provas e pediu as medidas à Justiça.
O principal suspeito é um técnico de enfermagem de 24 anos, estudante de fisioterapia, apontado como executor direto das aplicações letais. Segundo a investigação, ele injetava nas vítimas, sem prescrição médica, um medicamento de uso comum em UTI, mas em doses elevadas e sem diluição, de forma direta na veia, o que provocava parada cardíaca em poucos segundos. Em uma paciente de 75 anos, professora aposentada, ele chegou a aplicar desinfetante no acesso venoso após a vítima resistir a paradas cardíacas sucessivas.
As outras duas detidas são técnicas de enfermagem de 28 e 22 anos, apontadas como responsáveis por dar cobertura ao colega em parte das ações. Imagens de câmeras de segurança mostram que, enquanto o técnico aplicava o medicamento ou desinfetante nas vítimas, elas permaneciam na porta dos quartos, observavam o corredor e verificavam se alguém se aproximava. A polícia afirma que as duas participaram de pelo menos dois dos três casos sob apuração.
De acordo com os investigadores, o técnico aproveitou momentos em que o sistema do hospital estava aberto na conta de médicos para emitir receitas falsas e retirar o medicamento na farmácia, sem autorização. Ele manipulava o produto, guardava as seringas no jaleco e ia até os leitos para aplicar o conteúdo diretamente na veia dos pacientes. Em seguida, descartava as seringas em lixo comum, conduta proibida em ambiente hospitalar, o que chamou atenção da equipe interna.
Nos casos em que as vítimas entravam em parada cardíaca, o técnico chegava a fazer massagem cardíaca diante da equipe, o que levanta, para a polícia, suspeita de tentativa de dissimular a autoria dos atos. Em um dos episódios, a professora aposentada resistiu a seis paradas após receber quatro doses do medicamento, e por isso, segundo o inquérito, o suspeito utilizou ao menos dez a treze seringas com desinfetante na veia da paciente. Duas outras vítimas, um servidor da Caesb de 63 anos e um servidor dos Correios de 33 anos, também morreram na UTI, após piora súbita do quadro.
A direção do Hospital Anchieta informou, em nota, que instaurou um comitê interno de análise ao perceber circunstâncias fora do padrão na evolução dos pacientes, realizou apuração por cerca de 20 dias e identificou indícios que apontavam para atuação dos técnicos de enfermagem. Os três profissionais foram demitidos e o caso foi comunicado à Polícia Civil. A instituição afirma colaborar com as investigações e destaca que as mortes não têm relação com falhas de equipamentos ou protocolos médicos da unidade.
Os suspeitos foram presos na semana passada e, inicialmente, negaram participação nos crimes. Depois de confronto com as imagens de circuito interno, dois deles confessaram parte dos fatos, conforme divulgado pela polícia. O inquérito ainda apura a motivação e verifica se houve outros episódios semelhantes no mesmo hospital ou em unidades em que os profissionais trabalharam anteriormente.
As autoridades descartam, até o momento, a hipótese de que as mortes tenham ocorrido a pedido dos pacientes ou familiares. Famílias das vítimas relataram surpresa ao saber que a piora súbita dos quadros estaria ligada a ação criminosa e não a complicações naturais de saúde. No caso do servidor João Clemente, familiares afirmam que ele não tinha histórico de problemas cardíacos e, à época, chegaram a suspeitar de erro médico, sem imaginar que a polícia apontaria para uso de substâncias letais na UTI.





