A proposta do governo norte-americano de aplicar uma taxação retaliatória de até 25% sobre produtos industrializados do Brasil ativou um sinal de cautela entre lideranças empresariais e especialistas no modelo econômico da Zona Franca de Manaus (ZFM). A potencial sobretaxa decorre de uma investigação oficial dos Estados Unidos, baseada na Seção 301 de sua Lei de Comércio, que acusa o mercado brasileiro de adotar práticas comerciais consideradas “desleais ou irrazoáveis” contra empresas daquele país. O veredito definitivo de Washington está agendado para o dia 16 de julho.
O Polo Industrial de Manaus (PIM) conta atualmente com 553 indústrias ativas e responde por 131 mil postos de trabalho formais e diretos. Criado originalmente em 1967 com foco na substituição de importações para o abastecimento do cenário nacional, o polo registrou em 2025 um faturamento consolidado de US$ 40,90 bilhões (cerca de R$ 227,67 bilhões), montante que representou uma expansão de 11,02% em comparação ao ano anterior.
Baixo impacto nas exportações, mas risco nas importações
Aproximadamente 90% de tudo o que é fabricado pelas indústrias do PIM é absorvido pelo próprio mercado consumidor brasileiro. De acordo com a análise do cientista político e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Cleiton Maciel, esse direcionamento interno blinda o modelo de impactos severos e diretos nas vendas externas, uma vez que as exportações de Manaus para os EUA representam somente 1% do volume total do polo.
Por outro lado, o verdadeiro foco de atenção reside nas importações e na instabilidade do câmbio:
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Dependência de Insumos: Cerca de 10% dos componentes que abastecem as fábricas do Amazonas vêm diretamente do mercado norte-americano. O PIM depende da importação de maquinários, semicondutores, resinas plásticas e itens de alta tecnologia considerados vitais.
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O Perigo da Reciprocidade: Caso o governo brasileiro decida revidar a medida e aplicar tarifas na mesma proporção sobre os produtos vindos dos EUA, esses insumos estratégicos ficarão consideravelmente mais caros. O encarecimento tende a elevar os custos de produção no Amazonas, corroendo a competitividade das marcas instaladas na região.
Balança Comercial da ZFM (Dados consolidados de 2025)
├── Importações Gerais ──> US$ 14,7 bilhões (R$ 82 bilhões)
│ └── Principais origens: China, Coreia do Sul, EUA, Taiwan e Vietnã.
└── Exportações Gerais ──> US$ 664,6 milhões (R$ 3,69 bilhões)
└── Principais destinos: Compradores dos EUA focam em manufaturados mecânicos de nicho e duas rodas.
Segmentos industriais sob ameaça direta
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, esclarece que a engenharia tributária da Zona Franca de Manaus é desenhada estritamente para o cenário interno. Dessa forma, ao desembarcarem nos portos norte-americanos, as mercadorias locais enfrentam as alíquotas cheias vigentes.
“Portanto, ao chegarem ao mercado americano, nossos produtos não estão isentos e sofrerão a incidência integral da nova taxa, o que encarece diretamente as exportações e exige uma reavaliação de custos pelas indústrias locais para tentar preservar a competitividade”.
A Fieam mapeou os principais bens de nicho produzidos no PIM que correm o risco de sofrer com a sobretaxa e ter o ritmo de vendas externas freado:
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Motocicletas e peças de reposição;
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Dispositivos dispensadores de papel-moeda;
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Lentes e componentes ópticos;
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Preparações concentradas para a produção de bebidas;
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Madeiras beneficiadas.
Para solucionar o impasse comercial, a Fieam defende uma atuação ágil por parte dos Ministérios das Relações Exteriores (Itamaraty) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para buscar acordos diplomáticos bilaterais diretos com Washington. Procurado, o Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam) declarou que aguardará o detalhamento oficial das medidas antes de emitir um posicionamento.
Diplomacia e pressão por recursos minerais
Sob o ponto de vista geopolítico, as barreiras tarifárias sinalizadas pela administração de Donald Trump funcionam como ferramentas de pressão e barganha internacional. Segundo a avaliação do professor Cleiton Maciel, a medida não reflete um temor comercial dos EUA perante o Brasil, haja vista que a balança de comércio bilateral não exibe superávits alarmantes a favor dos brasileiros.
O real interesse norte-americano estaria atrelado ao controle de cadeias de suprimentos de minerais críticos e terras raras presentes no território brasileiro. O avanço de inovações financeiras e industriais do Brasil, como o sistema de pagamentos Pix, também desperta atenção. Nesse tabuleiro, a Zona Franca de Manaus — idealizada originalmente como salvaguarda da soberania e do desenvolvimento na Amazônia — acaba exposta a oscilações provocadas por pressões e interesses de forças estrangeiras na região.






