SÃO PAULO — Em análise publicada nesta terça-feira (16), o jornalista de economia Luís Nassif destrinchou o atual momento de inflexão vivido pelo Nubank. Pela primeira vez desde a sua oferta pública inicial de ações (IPO), a fintech enfrenta questionamentos severos do mercado financeiro sobre a sustentabilidade do seu modelo de negócios. Bancos de investimento globais, liderados pelo Citibank e pelo Bank of America (BofA), revisaram suas projeções para a instituição, apontando que o crescimento acelerado da carteira de crédito está cobrando um preço alto demais em risco e inadimplência.
O cenário de incerteza externa coincide com uma expressiva reestruturação interna na cúpula do banco digital. Um esvaziamento de cargos-chave do alto escalão nos últimos meses vem sendo interpretado por analistas como um sintoma de tensões na governança corporativa da empresa.
A Debandada de Executivos no Topo da Gestão
A mudança de comando mais impactante ocorreu neste mês de junho com o anúncio da saída do diretor financeiro (CFO) Guilherme Lago, considerado o principal interlocutor do banco junto ao mercado de capitais desde 2019. Lago será substituído por Rob Livingston (ex-Visa), mas o momento da transição agravou o pessimismo das ações na bolsa.
O movimento de Lago encerra um ciclo de perdas humanas estruturais na liderança:
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Youssef Lahrech (Presidente e COO): Considerado o braço direito do fundador David Vélez e pilar da expansão internacional, deixou a operação em maio de 2025.
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Jag Duggal (Chief Product Officer): Arquiteto das linhas de produtos digitais, desligou-se ao longo de 2025.
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Vitor Olivier (CTO): Responsável técnico pela arquitetura de TI do banco, saiu em agosto de 2025 para fundar uma startup.
O Alerta dos Indicadores: Crédito vs. Provisões
O cerne da desconfiança dos analistas repousa na deterioração marginal da qualidade do crédito. O Nubank expandiu sua carteira total em cerca de 40%, atingindo o patamar de US$ 37,2 bilhões. Contudo, no mesmo intervalo de tempo, as provisões para perdas de liquidação duvidosa (PCLD) — o dinheiro que o banco precisa separar para cobrir calotes — dispararam 75,7%.
A Assimetria de Risco no Balanço (1T26)
├── 📈 Carteira de Crédito Total ──> US$ 37,2 bilhões (+40% em 1 ano)
├── ⚠️ Inadimplência Curta (15-90d) ─> Atinge a marca de 5% da base
└── 🚨 Provisões contra Calotes ───> Crescimento de 75,7% no período
A inadimplência de curto prazo (entre 15 e 90 dias) subiu para 5%. No varejo bancário, essa faixa é tratada como um indicador antecedente crítico: atrasos curtos hoje tendem a se consolidar como perdas financeiras brutas (write-offs) nos trimestres seguintes.
Historicamente, o Nubank surfou no “efeito safra” (vintage), onde carteiras novas compostas por clientes recém-adquiridos parecem altamente saudáveis nos primeiros meses. À medida que a base amadurece sob juros elevados e inflação, o verdadeiro teto da inadimplência estrutural começa a aparecer nos balanços. O BofA rebaixou a recomendação das ações para venda, argumentando que o mercado precificava um prêmio de crescimento irrealista para o ativo.
Cartão de Crédito e a Dependência da Rolagem de Dívida
A maior parte do faturamento de crédito do banco digital ainda está concentrada em seu produto original: o cartão de crédito responde por 67% da carteira (US$ 24,9 bilhões).
Estimativas levantadas pelo Itaú BBA apontam que aproximadamente 35% desse estoque de cartões é composto por saldos geradores de juros (interest-earning). Isso significa que cerca de US$ 8,7 bilhões representam faturas parceladas, crédito rotativo ou refinanciamentos — modalidades de altíssima rentabilidade (gerando uma margem financeira líquida de 19%), mas que mascaram um potencial “efeito bola de neve” de endividamento familiar.
O Fator Consignado Privado com Garantia do FGTS
Para mitigar a volatilidade do cartão e buscar ativos mais seguros, o Nubank aposta todas as suas fichas no consignado privado para trabalhadores CLT. A modalidade, impulsionada por flexibilizações regulatórias, permite que o banco acesse um mercado de até 47 milhões de carteiras assinadas, com desconto em folha e uso de até 10% do saldo do FGTS (além de 100% da multa rescisória) como garantia em caso de demissão.
A estratégia cria um dilema de longo prazo: trocar um produto de margem astronômica e alto risco (rotativo do cartão) por uma linha de menor retorno, porém de alta previsibilidade e baixa inadimplência. É o sucesso ou fracasso dessa transição que ditará o futuro da fintech frente aos bancos tradicionais.






