As doenças antes consideradas incuráveis estão começando a ganhar novas opções de tratamento graças ao uso da inteligência artificial (IA) no desenvolvimento de medicamentos. A tecnologia está sendo aplicada em áreas como Parkinson, infecções causadas por superbactérias resistentes a antibióticos e diversas doenças raras, onde o custo e o tempo tradicionais de pesquisa eram barreiras quase proibitivas.
Um dos focos principais é a busca por antibióticos contra bactérias que já escaparam do controle dos medicamentos atuais. Desde 2017, só cerca de 12 antibióticos totalmente novos foram aprovados, e muitos repetem mecanismos antigos, contra os quais as bactérias já desenvolveram resistência. A IA permite examinar milhões ou bilhões de moléculas em poucos dias, algo que, antes, demandaria meses de laboratório e custos elevados, facilitando a identificação de candidatos capazes de atacar micro‑organismos por vias diferentes das usadas pelos antibióticos clássicos.
Na área de doenças neurodegenerativas, a IA tem sido usada para encontrar compostos capazes de interromper a agregação de proteínas associadas à doença de Parkinson, em especial a proteína alfa‑sinucleína, responsável pela formação dos corpos de Lewy no cérebro. Pesquisadores de universidades como Cambridge e Harvard criaram modelos que simulam combinações de genes e medicamentos, acelerando a descoberta de moléculas que estabilizam a proteína em sua forma saudável, com o objetivo de não só tratar sintomas, mas tentar prevenir a doença antes que se instale.
Em casos de doenças raras, como a doença de Castleman multicêntrica idiopática (iMCD), algoritmos de IA já ajudaram clínicos a identificar o melhor esquema de medicamento para um paciente que não respondia a outras terapias, guiando o uso de remédios já existentes de forma mais precisa. Esse tipo de abordagem aumenta a chance de remissão em pacientes com quadros antes vistos como praticamente sem saída, mesmo que o tratamento não seja “curativo” no sentido estrito, mantendo a enfermidade sob controle por anos.
Empresas especializadas em “descoberta de medicamentos por IA”, como a Insilico Medicine, usam modelos de aprendizado de máquina para projetar moléculas direcionadas a alvos específicos, como fibrilose pulmonar idiopática, e testar candidatos em fases clínicas. A expectativa, conforme estudos e análises recentes, é que, até o fim da década, pelo menos uma parte desses compostos tenha passado por testes suficientes para ser disponibilizada como terapia complementar ou alternativa, principalmente para condições em que as opções atuais são limitadas ou tóxicas.





