A 34ª edição da Marcha para Jesus, realizada nesta quinta-feira (4) de feriado de Corpus Christi em São Paulo, foi marcada por discursos de cunho eleitoral e manifestações de polarização política. O evento reuniu um público estimado de 33,8 mil pessoas, de acordo com o monitoramento divulgado pela Universidade de São Paulo (USP).
Apesar de a organização do evento ter sinalizado formalmente uma orientação para que as autoridades evitassem pronunciamentos de caráter político por se tratar de um ano eleitoral, o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), utilizou o microfone do trio elétrico principal para mandar recados à gestão federal.
“Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano. Em nome do senhor Jesus, amém”, declarou o parlamentar.
A postura repete o tom adotado por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que em edições anteriores também classificou a disputa política contra o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma “guerra do bem contra o mal”, focando o discurso na pauta de costumes e valores conservadores.
Organização e o posicionamento de Jorge Messias
Na véspera da marcha, o líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo e organizador geral, apóstolo Estevam Hernandes, havia assegurado que a caminhada manteria uma conotação estritamente religiosa, rechaçando a ideia de transformar o veículo em palanque. Contudo, em declarações à imprensa, Hernandes admitiu uma “tendência natural” de apoio pessoal à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro devido ao atual cenário polarizado do país.
Representando o governo federal, o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, compareceu à Marcha para Jesus pelo quarto ano consecutivo. Messias manteve-se posicionado na parte dianteira do trio, sem interagir com os opositores políticos — que incluíam, além de Flávio, o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB).
O ministro da AGU rebateu as falas de teor eleitoral do senador do PL e defendeu a neutralidade no espaço sagrado:
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Crítica aos discursos: “Hoje é um dia de louvar e adorar a Deus. Hoje não é dia de comício, eu vim aqui com esse espírito. As pessoas vão julgar o comportamento e a declaração de todos que estão aqui, não sou eu que vou julgar. Jesus nos ensinou a não julgar”.
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Telefonema de Lula: Durante a mobilização, Messias intermediou um telefonema direto entre o presidente Lula e o apóstolo Estevam Hernandes. Na ligação, reproduzida em redes sociais, Lula justificou sua ausência física afirmando que não concorda com o uso da religiosidade para fins políticos: “Eu não participo de nada da religião em época de eleição, porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando ter proveito político de uma coisa sagrada”.
Bastidores e tensões na ala da direita paulista
A agenda pública serviu de reencontro oficial entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas após semanas de distanciamento e “guerra fria” entre seus respectivos núcleos políticos. O mal-estar recente foi desencadeado por uma operação realizada pela Polícia Civil de São Paulo que investiga supostas irregularidades em um contrato de R$ 157 milhões firmado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes com uma ONG.
A ação policial mirou a sócia da produtora do filme “Dark Horse”, obra cinematográfica de apoio à trajetória de Jair Bolsonaro que contou com articulação política de Flávio Bolsonaro.
Divergências nos Bastidores da Direita
├── Núcleo de Flávio Bolsonaro ─> Viu indícios de "pescaria probatória" e queixou-se
│ da falta de blindagem pública por parte do Estado.
└── Núcleo de Tarcísio ─────────> Defendeu a total autonomia da Polícia Civil como
instituição de Estado e buscou distanciamento estratégico.
Ao ser questionado sobre o episódio durante a marcha, o governador Tarcísio de Freitas blindou a atuação de seus policiais corporativos: “A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações e operações. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. Sempre vai ser assim”.
Apesar do clima de distanciamento nos bastidores, as coordenações de campanha de ambos projetam uma reaproximação com a proximidade do início do período oficial de propaganda eleitoral, cumprindo a meta de consolidar o palanque conservador unificado no estado de São Paulo.






