A estratégia do banco Digimais, controlado pela holding do bispo Edir Macedo, para esconder sua real situação financeira envolveu a desova agressiva de contratos de alto risco. Documentos revelam que a instituição repassou para fundos de investimento uma carteira de financiamento de veículos usados com impressionantes 60% de inadimplência — um patamar de calote que bancos tradicionais evitam a qualquer custo. A manobra ocorre em meio a negociações secretas para a venda da instituição ao gigante BTG Pactual.
O coração do Digimais sempre foi o financiamento de veículos velhos e baratos para motoristas já endividados. Para compensar o risco extremo, a instituição cobrava taxas abusivas: em dezembro de 2025, o banco figurou em quarto lugar no ranking de maiores juros do Banco Central, operando a estrondosos 2,97% ao mês e 41,07% ao ano.
Embora esse tipo de crédito tenha representado 94% de todas as operações do banco em 2021, a cúpula da empresa passou a reduzir essa fatia artificialmente. Ao repassar os contratos problemáticos para estruturas paralelas, o financiamento veicular caiu para 52% da carteira de crédito nos balanços oficiais entregues ao Banco Central.
O buraco negro do fundo Tabor e o alerta dos peritos
O principal escoadouro desses “créditos podres” foi o fundo Tabor, uma estrutura da qual o próprio Digimais é o investidor oculto. Em abril de 2026, o Tabor acumulava R$ 960 milhões em carteiras de crédito, mas nada menos que R$ 575 milhões (59,9%) estavam em situação de calote aberto. Desse montante, mais de R$ 200 milhões correspondem a parcelas vencidas há até dois anos.
A maquiagem contábil fica explícita no confronto de dados do último balanço semestral, em dezembro de 2025:
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O que o Digimais declarou: R$ 366 milhões em créditos vencidos de automóveis.
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A realidade oculta: No mesmo período, apenas o fundo Tabor já registrava R$ 479 milhões em inadimplência galopante.
“Quando um Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC) fica desse jeito, com 50% de inadimplência, o caminho natural é encerrar o fundo. Dificilmente esse dinheiro será recuperado”, alertou Alexandre Ripamonti, especialista em perícia contábil.
O analista de investimentos Gabriel Uarian reforça que a manobra não é usual em bancos bem geridos. Segundo ele, o Digimais suspendeu novos financiamentos e passou a fazer cessões de direitos de forma agressiva para inflar o balanço, desvirtuando o papel dos FIDCs, que deveriam servir para diversificar capital com transparência real de risco.
Precatório fantasma de Getúlio Vargas entra na contabilidade
Para sustentar a engenharia financeira, a holding de Edir Macedo precisou aportar dinheiro, comprando R$ 741 milhões em cotas que o Digimais possuía em outro fundo, o Hermon. No entanto, o Hermon não gera nenhum lucro no curto prazo: seu único ativo é uma disputa judicial histórica dos anos 1990 envolvendo herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, que foi encampada pela ditadura de Getúlio Vargas em 1940 para a criação da Vale do Rio Doce.
A Justiça Federal do Rio de Janeiro chegou a condenar a União a pagar uma indenização equivalente a 7 mil ações da Vale, e o fundo estima ter R$ 2,2 bilhões a receber. Contudo, os cálculos do pagamento geram controvérsias jurídicas severas e o desfecho pode levar décadas na Justiça.
Venda para o BTG Pactual depende de socorro bilionário
A urgência em limpar os balanços tem um alvo claro: fechar a venda da instituição para o BTG Pactual, que tenta assumir a carteira de clientes do Digimais em 2026.
Em nota oficial, o BTG confirmou que já assinou documentos vinculantes para a potencial aquisição, mas ressaltou que o negócio está longe de um desfecho simples. A operação terá que ocorrer obrigatoriamente por meio de um leilão competitivo e depende de condições rígidas. O ponto mais crítico revelado pelo BTG é que a eventual transação exigirá “mecanismos de suporte financeiro”, incluindo a participação direta do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para cobrir o rombo deixado pelas carteiras inadimplentes.






