BRASÍLIA — O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou nesta terça-feira (16) o sigilo dos inquéritos vinculados ao chamado Caso Master. Os documentos oficiais, abastecidos por relatórios de inteligência da Polícia Federal (PF), revelam uma intrincada rede de vantagens econômicas e agrados luxuosos oferecidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, a figuras do topo do Legislativo federal, com destaque para o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
A investigação aponta que a proximidade entre o banqueiro e as autoridades ia muito além de relações pessoais, configurando um ecossistema de “benefícios mútuos”. Em troca do custeio de uma vida de alto padrão no exterior, parlamentares atuavam diretamente para defender os interesses econômicos do banco dentro do Congresso Nacional.
A “Emenda Master” e a Vida de Luxo de Ciro Nogueira
Segundo o relatório da Polícia Federal, o senador Ciro Nogueira utilizou suas prerrogativas parlamentares para beneficiar diretamente o Banco Master. O principal indício técnico levantado pela PF foi a apresentação de um projeto que passou a ser chamado nos bastidores de “Emenda Master”, em 2024.
O Mecanismo de Troca no Congresso
├── 📥 Demanda do Banco ──> Assessoria do Master redige emenda para ampliar teto do FGC.
├── ✉️ Intermediação ─────> Minuta é enviada a Daniel Vorcaro, que repassa a Ciro Nogueira.
├── 🏛️ Atuação Política ──> Senador protocola o texto oficialmente no Congresso Nacional.
└── 💳 Contrapartida ─────> Banqueiro financia viagens, voos em jatos e hotéis de luxo.
A emenda tinha como objetivo direto expandir o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que blindaria operações da instituição. Mensagens apreendidas indicam que a minuta do texto foi redigida pela própria banca jurídica do banco e enviada ao gabinete do senador.
Em contrapartida, Vorcaro teria fornecido uma linha de mimos financeiros a Nogueira:
-
Acomodações: Hospedagens em hotéis boutique de altíssimo padrão em Nova York.
-
Logística e Gastronomia: Voos internacionais fretados e jantares em restaurantes exclusivos.
-
Linha de Crédito: Disponibilização de um imóvel residencial de luxo e o uso irrestrito de cartões de crédito pessoais do banqueiro pelo senador em viagens de lazer.
O senador Ciro Nogueira foi formalmente procurado pela imprensa, mas optou por não se manifestar sobre o relatório da PF.
Diárias de 3 Mil Euros em Lisboa para o Presidente da Câmara
O deputado federal Hugo Motta, atual presidente da Câmara, também teve o nome mapeado nas quebras de sigilo telemático. Trocas de mensagens no aplicativo WhatsApp detalham a inclusão de Motta em listas de passageiros de jatos executivos pertencentes a Vorcaro, muitas vezes dividindo os mesmos voos com Ciro Nogueira.
A PF identificou o pagamento integral de despesas de hospedagem para Hugo Motta em Lisboa, Portugal, em junho de 2024. O banqueiro solicitou reservas de múltiplos quartos em um dos hotéis mais caros da capital portuguesa. A nota fiscal recuperada pelos investigadores somou 3.155,71 euros (cerca de R$ 20 mil na cotação atual) por cinco diárias.
🗣️ O Outro Lado: Hugo Motta declarou publicamente estar “com muita tranquilidade” quanto às citações. Ele confirmou que viajou a Lisboa para participar de um tradicional fórum jurídico e afirmou não ver irregularidades ou inadequação no fato de ter tido sua estadia custeada. É importante destacar que Motta não figura como investigado formal no inquérito até o momento.
Tensão nos Bastidores: Ameaças da Irmã de “Sicário”
Um dos desdobramentos mais tensos do caso envolve o núcleo familiar dos Vorcaro e os espólios da Operação Compliance Zero. Joana Mourão, irmã de Luiz Phillipi Mourão (o “Sicário” — operador que cometeu suicídio após ser preso), enviou mensagens contundentes à família do banqueiro.
Joana culpa o grupo financeiro pela ruína econômica em que sua mãe foi deixada. Nas mensagens enviadas a intermediários, ela afirmou possuir arquivos digitais pesados, capazes de “acabar com a família inteira” de Vorcaro, ameaçando vazar todo o dossiê para veículos de imprensa caso não recebesse amparo financeiro.
Em resposta, a PF interceptou um plano de contenção de danos operado por Henrique Vorcaro (pai de Daniel) e pelo bicheiro Manoel Rodrigues, o “Manolo”. Eles tentaram organizar repasses de ativos para silenciar Joana e evitar que o material guardado em nuvens fosse entregue à polícia. Paralelamente, Joana relatou ter recebido vídeos intimidatórios exibindo fuzis, ameaçando-a de morte caso seguisse com as chantagens. A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro não emitiu posicionamentos até o fechamento da reportagem.






