América do Sul em Redução: O Cenário da Jornada de Trabalho na Colômbia e no Chile

Enquanto o Brasil debate o fim da escala 6x1 e a transição para 40 horas, países vizinhos consolidam reformas graduais com foco em flexibilidade operacional e estabilidade no emprego
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SÃO PAULO — O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 ganhou novos contornos no Brasil a partir das experiências recentes de seus vizinhos sul-americanos. Países como a Colômbia e o Chile estão em fases avançadas de implementação de leis aprovadas nos últimos anos que encurtam o tempo de serviço semanal. Embora o setor empresarial relate pressões sobre os custos, os dados macroeconômicos iniciais apontam para um mercado de trabalho resiliente, com desemprego em níveis historicamente baixos.

O modelo adotado por esses países traz lições fundamentais discutidas por economistas e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), destacando que o segredo do sucesso dessas transições reside na gradualidade e na flexibilidade de horários.

Colômbia: Menos Horas, Salário Maior e Desemprego em Queda

Na Colômbia, os trabalhadores assalariados se preparam para atingir o teto de 42 horas semanais. O processo consiste em uma redução progressiva de seis horas aprovada originalmente em 2021, sob o governo de direita de Iván Duque.

A medida somou-se à reforma trabalhista de 2025 do atual presidente de esquerda, Gustavo Petro, que elevou o salário mínimo em 23,7% e expandiu o adicional noturno. De acordo com o economista Stefano Farné, da Universidade Externado de Bogotá, o impacto nas vagas foi amplamente positivo.

Impacto da Redução de Jornada na Colômbia (2022-2025)
├── 📈 +787.000 ──> Novos postos criados para compensar a redução de horas (Corficolombiana)
├── 📉 Baixa Histórica ─> Taxa de desemprego se manteve estável e em níveis mínimos
└── ⚠️ Alerta Empresarial -> Queda na produtividade por trabalhador e fechamento antecipado de lojas

Apesar do crescimento do emprego, entidades como a Fenalco (Federação Nacional de Comerciantes) apontam que os custos operacionais forçaram adaptações drásticas: 51% das empresas passaram a fechar mais cedo para evitar encargos noturnos, 25% aceleraram a automação de processos e 23% repassaram os custos aos preços dos produtos.

A Diferença Estrutural: Flexibilidade sem Dias Fixos

A grande distinção entre o projeto em discussão no Brasil e a realidade colombiana está na flexibilidade da distribuição das horas. A lei da Colômbia não estabeleceu a obrigatoriedade de dois dias consecutivos de folga na semana (o modelo 5×2 puro).

  • Pactos de Horários: Empresas e funcionários podem negociar jornadas diárias flutuantes (trabalhar mais em um dia para compensar no outro).

  • Folga Rotativa: O empregador ganhou o direito de escolher o dia de descanso semanal do trabalhador, removendo a preferência histórica pelos sábados e domingos — o que aliviou o impacto nos setores de comércio, bares e hotelaria.

  • Moeda de Troca: Em contrapartida à redução, foram extintas obrigatoriedades como o “dia da família” (uma folga semestral) e duas horas semanais obrigatórias de atividades culturais em grandes empresas.

O Caso do Chile: Transição Firme até as 40 Horas

O Chile serve como o principal laboratório de longo prazo para a OIT na região. O governo de Gabriel Boric aprovou em 2023 a transição da jornada de 45 horas para 40 horas semanais, com um cronograma escalonado que começou em 2024 e se estenderá até 2028.

O país já havia reduzido sua jornada de 48 para 45 horas nos anos 2000. Estudos empíricos liderados por economistas chilenos revelaram que a mudança anterior não gerou demissões em massa nem contração do mercado. As empresas utilizaram os anos de transição para reestruturar suas linhas de produção e absorveram o custo da hora trabalhada — que passou a ser mais valorizada, uma vez que as reduções de jornada na América Latina são feitas sem redução dos salários nominais.

Lições para o Contexto Brasileiro

Especialistas apontam que a tendência global de trabalhar menos horas é irreversível, mas alertam que o Brasil precisa calibrar o tempo de adaptação. Enquanto a Colômbia levou cinco anos e o Chile adota uma janela de quatro anos, propostas de transições excessivamente rápidas (como reduções abruptas em poucos meses) podem sufocar a capacidade de planejamento das micro e pequenas empresas, gerando o risco de repasses inflacionários ou informalidade.

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