Prestes a completar 85 anos de vida e comemorando 60 anos de sacerdócio, o Padre Zezinho — nome de registro José Fernandes de Oliveira — enfrenta uma nova onda de ataques virtuais promovida por alas católicas tradicionalistas e de extrema-direita. O estopim para a mais recente polêmica ocorreu em maio, após o sacerdote compartilhar em sua página oficial do Facebook (que conta com mais de 1 milhão de seguidores) um artigo do sociólogo Romero Venâncio criticando a “escalada delirante de extremistas católicos nas redes digitais”. O compartilhamento resultou na viralização de vídeos falsos associando o religioso ao comunismo, além de calúnias diárias.
“Todos os dias eu sou agredido. Falam até que eu sou um câncer para a Igreja. Não desejo o câncer para ninguém, até porque tenho um em tratamento. Nunca vou chamar alguém de câncer. Vou discordar de muitos, mas vou continuar sendo amigo e buscando diálogo”, desabafou o padre em entrevista à BBC News Brasil, direto do convento onde vive em Taubaté (SP).
A raiz do conflito: Concílio Vaticano II e a Doutrina Social
O descontentamento de setores conservadores com Padre Zezinho não é recente e está profundamente atrelado à sua formação teológica e pastoral. O religioso é um fruto direto das transformações geradas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), assembleia que modernizou a Igreja Católica ao determinar o fim das missas exclusivamente em latim e ao reforçar o compromisso clerical com os mais pobres e com o campo social.
-
Defesa das Encíclicas: O padre baseia seu discurso no conjunto de cartas papais voltadas para as preocupações sociais — a chamada Doutrina Social da Igreja —, que inclui desde a histórica Rerum Novarum (de Leão XIII) até documentos recentes.
-
Rejeição ao Marxismo: Embora seja frequentemente rotulado por alas de direita como integrante da Teologia da Libertação (TL), o sacerdote faz uma distinção clara sobre sua postura: “Sou da TL bíblica, não da TL marxista. Não sou contra Marx, só acho que o acento em marxismo não ajuda a Igreja. Mas o capitalismo também não ajuda. Entre capitalismo e comunismo, eu escolho o diálogo”.
-
Música com Mensagem: Ao contrário da maioria dos padres cantores contemporâneos focados em canções de louvor e mística individual, o repertório de Padre Zezinho traz fortes críticas sociais. Um exemplo é a música Prece Pelo Social (2000), cuja letra diz: “O rico menos rico / O pobre menos pobre / […] Do jeito que está não dá”.
Uma trajetória marcada por rótulos e pioneirismo
De acordo com analistas e com a jornalista Gabi Bonvechio — assessora do clérigo e autora da recém-lançada biografia autorizada Apenas Um Cidadão do Infinito: Vida e Missão de Pe. Zezinho —, o religioso é alvo de distorções por não se encaixar em caixas ideológicas binárias.
Evolução das Críticas ao Longo das Décadas
├── Anos 1970/1980 (Alvo da Esquerda) ──> Criticado por focar em temas tradicionais
│ como a estrutura familiar e a piedade.
└── Anos 2020 (Alvo da Direita) ────────> Atacado nas redes e chamado de "comunista"
por cobrar justiça social e igualdade.
Para o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, a Igreja Católica no Brasil passa atualmente por uma “reação pentecostal”, fazendo com que figuras históricas como Padre Zezinho e o Padre Júlio Lancellotti sofram com a intolerância da onda de conservadorismo.
Por sua vez, o teólogo Raylson Araujo (PUC-SP) destaca o legado deixado pelo compositor de Oração pela Família (sucesso que transcendeu os templos e foi cantado com Roberto Carlos em 1997): “Tem padre que canta, mas não faz reflexão teológica. Tem padre que faz reflexão teológica, mas não canta. Padre Zezinho fez os dois com maestria”.






