Durante o período em que as eleições brasileiras eram efetuadas por meio de cédulas de papel preenchidas à mão, a população recorria ao preenchimento do nome de animais como forma de manifestação e protesto contra a classe política, denúncias de corrupção e crises de gestão pública. Como o papel permitia qualquer anotação livre, os sufrágios destinados aos bichos eram contabilizados como nulos, porém registravam numericamente o nível de descontentamento do eleitorado.
Entre os casos históricos ocorridos entre 1959 e 1988, destacam-se as votações do rinoceronte Cacareco em São Paulo, do mosquito da dengue em Vila Velha (ES) e do Macaco Tião no Rio de Janeiro.
A votação do Rinoceronte Cacareco em São Paulo (1959)
Lançada de forma simbólica pelo jornalista Itaboraí Martins como crítica às denúncias de corrupção e aos problemas urbanos paulistanos, a “candidatura” do rinoceronte Cacareco à Câmara Municipal de São Paulo somou mais de 100 mil votos. O número superou a votação individual de todos os 540 candidatos humanos e a soma total do partido mais votado na época, que não atingiu 95 mil votos. O animal pertencia ao Zoológico de São Paulo.
O mosquito da dengue em Vila Velha (1987)
Em 1987, durante um período de crise sanitária e falta de infraestrutura de saneamento básico no município de Vila Velha (ES), moradores promoveram uma campanha de voto de protesto para o mosquito da dengue (Aedes aegypti). O inseto figurou em 29.668 cédulas eleitorais, superando o candidato mais votado, Magno Pires (PT), que somou 26.633 votos e assumiu o cargo devido à anulação dos votos atribuídos ao mosquito.
Macaco Tião no Rio de Janeiro (1988)
Nas eleições municipais do Rio de Janeiro em 1988, a revista satírica Casseta Popular criou a candidatura do Macaco Tião, um chimpanzé famoso do zoológico carioca, sob a legenda do fictício “Partido Bananista Brasileiro”. Em meio a um cenário de inflação elevada e desconfiança política, o chimpanzé alcançou cerca de 400 mil votos, obtendo a terceira maior votação para a prefeitura da capital.
O fim do voto em animais com a urna eletrônica
A modalidade de protesto por meio de nomes de animais deixou de existir com a implementação da urna eletrônica na década de 1990. Com o sistema numérico e digital, o descontentamento do eleitorado passou a ser manifestado exclusivamente por meio do voto nulo, voto em branco ou abstenção.






