BRASIL – Uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que 21,4 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses no Brasil. O número representa 37,5% da população feminina do país e é o maior índice já registrado desde o início da série histórica da pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, em 2017. O levantamento, realizado pelo Datafolha, ouviu 2.007 pessoas com mais de 16 anos em 126 municípios brasileiros entre 10 e 14 de fevereiro de 2025.
Principais tipos de violência
A pesquisa mostrou que as agressões mais comuns são ofensas verbais, como insultos e humilhações, relatadas por 31,4% das mulheres, o equivalente a 17,7 milhões de brasileiras. Em seguida, aparecem a agressão física (16,9%, ou 8,9 milhões de vítimas), ameaças de agressão (16,1%, 8,5 milhões) e perseguição, conhecida como stalking (16,1%, 8,5 milhões). Além disso, 10,7% das mulheres (5,3 milhões) relataram ter sofrido abuso sexual ou sido forçadas a manter relações sexuais contra a vontade.
Pela primeira vez, o estudo também investigou a divulgação de fotos ou vídeos íntimos sem consentimento: 3,9% das entrevistadas (1,5 milhão de mulheres) disseram ter passado por essa situação.
Agressões na frente de terceiros
Um dado que chamou a atenção foi que 91,8% das agressões ocorreram na presença de outras pessoas. Em 47,3% dos casos, quem presenciou foram amigos ou conhecidos; em 27%, os filhos; e em 12,4%, outros parentes. Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destacou que a violência física tende a gerar mais reação das testemunhas do que a violência psicológica, que muitas vezes é ignorada.
“Somos menos coniventes com a agressão física. Muitas mulheres sofrem formas de violência que passam por ameaça, intimidação, violência psicológica, e o entorno ainda não reconhece isso como violências graves e acaba sendo conivente com essas práticas”, afirmou Samira.
Impacto nas crianças
A pesquisa também alertou para os efeitos da violência doméstica nas crianças que presenciam as agressões. Estudos mostram que testemunhar violência entre os pais pode causar distúrbios emocionais, cognitivos e comportamentais, além de aumentar a probabilidade de que essas crianças se tornem vítimas ou agressores na vida adulta.
“Naturalizar essas práticas de algum modo influencia na forma como elas vão lidar com isso na vida adulta, muitas vezes entendendo que isso é legítimo”, explicou Samira Bueno.
Perfil das vítimas e agressores
As mulheres mais afetadas pela violência estão na faixa etária de 25 a 34 anos, mas o problema atinge todas as idades. Mulheres negras (37,2%) e evangélicas (49,7%) relataram índices mais altos de vitimização. Já os principais agressores são parceiros íntimos ou ex-parceiros: 40% das agressões foram cometidas por cônjuges, companheiros ou namorados, e 26,8% por ex-parceiros.
A maioria das agressões (57%) ocorreu dentro de casa, reforçando que o ambiente doméstico ainda é o mais perigoso para as mulheres.
Poucas buscam ajuda
Apesar da gravidade das situações, apenas 25,7% das vítimas procuraram ajuda em órgãos oficiais, como delegacias especializadas. A maioria (47,4%) não tomou nenhuma atitude após a agressão, enquanto 19,2% buscaram apoio de familiares e 15,2% de amigos.
Como pedir ajuda
Em caso de emergência, o número para ligar é o 190. Para denúncias de violência contra mulheres, o Disque 180 oferece suporte. Além disso, organizações como o Mapa do Acolhimento, Justiceiras, Recomeçar, Associação Fala Mulher e Instituto Maria da Penha oferecem apoio jurídico, psicológico e abrigo para vítimas de violência doméstica.




