Ex-estagiário do MP-SP infiltrou-se em Promotoria para mapear e extorquir membros do PCC

Investigação detalha como Gabriel Lira de Jesus utilizava sistemas internos para achar alvos de alta renda e cobrar até R$ 500 mil em troca de "proteção"
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SÃO PAULO — O Ministério Público de São Paulo (MPSP) detalhou a dinâmica de atuação do ex-estagiário Gabriel Lira de Jesus, preso na manhã desta terça-feira (9) durante a Operação Infiltrados. De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), o suspeito — que se formou em Direito no ano passado — ingressou propositadamente em uma das Promotorias de Justiça Criminais de Campinas com o objetivo exclusivo de cometer crimes e vazar dados sigilosos para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

A operação cumpriu três mandados de prisão temporária e dez de busca e apreensão. Além do ex-estagiário, foram presos o chefe de investigadores da Dise (Delegacia de Investigação Sobre Entorpecentes) de Campinas, Maurício Aparecido de Oliveira, e um ex-policial civil (já expulso da corporação anteriormente por extorsão mediante sequestro). Um policial penal também é investigado por dar suporte às ações do grupo.

O modus operandi da infiltração e chantagem

As investigações do Gaeco revelaram uma inversão no padrão de atuação do crime organizado: em vez de apenas subornar agentes públicos para evitar punições, a rede usava a estrutura do Estado para extorquir os próprios criminosos da facção.

  • Mapeamento de alvos: Valendo-se das credenciais de acesso do estágio, Gabriel Lira consultava os bancos de dados confidenciais e os sistemas de pesquisa do Ministério Público. O objetivo era monitorar inquéritos e rastrear criminosos de alto poder aquisitivo.

  • Venda de blindagem: Após identificar os faccionados com grande patrimônio financeiro, o ex-estagiário entrava em contato exigindo quantias expressivas em dinheiro. Em troca, ele prometia a exclusão de provas, o sumiço de relatórios ou uma suposta “proteção” institucional nas investigações em andamento.

  • Infraestrutura jurídica e policial: Para operacionalizar o crime, o ex-estagiário recebia auxílio técnico e de inteligência do ex-policial civil e de um policial penal. Os contatos e as cobranças financeiras eram feitos de forma virtual, utilizando a conexão de internet de um escritório de advocacia em Campinas para tentar mascarar o rastreamento do IP.

Cobrança de R$ 500 mil em celular apreendido

A fraude começou a ruir após o Gaeco apreender o telefone celular do empresário Maurício Silveira Zambaldi, conhecido como “Dragão”, dono da concessionária Dragão Motos e suspeito de lavar dinheiro para o PCC.

Mensagens de Extorsão Identificadas
├── Alvo da Cobrança ──> Maurício Silveira Zambaldi, o "Dragão" (preso em 2025).
├── Valor Exigido ─────> R$ 500 mil em dinheiro.
└── Justificativa ─────> Impedir o envio de relatórios de inteligência financeira ao Gaeco.

No aparelho de “Dragão”, os promotores localizaram mensagens em que uma pessoa exigia o pagamento de R$ 500 mil para não enviar documentos comprometedores ao Ministério Público. O chantagista afirmava falsamente estar operando a partir da cidade de Balneário Camboriú (SC), mas o rastreamento digital provou que o autor do texto era Gabriel Lira de Jesus, que acessava os processos da facção de dentro da promotoria paulista.

Conexão com plano de morte contra Promotor

O inquérito da Operação Infiltrados é um desdobramento direto da Operação Pronta Resposta, deflagrada em agosto de 2025 para frustrar um plano de atentado contra a vida do promotor de Justiça Amauri Silveira Filho. O promotor, que atua há mais de dez anos no Gaeco de Campinas, era alvo de um monitoramento detalhado do PCC, que planejava executá-lo utilizando uma caminhonete Hilux SW4 blindada, adaptada com uma metralhadora de guerra calibre .50.

Os promotores descobriram que, exatamente uma semana antes da operação que desarticulou o atentado em 2025, o chefe de investigadores da Dise, Maurício Aparecido de Oliveira, encontrou-se presencialmente com o criminoso apontado como o executor do plano contra o promotor. Vídeos recuperados pelas autoridades confirmam a reunião. A suspeita é de que o chefe policial estivesse repassando informações sensíveis para alertar a facção sobre os passos do Ministério Público. As Corregedorias das Polícias Civil e Penal dão suporte à ação para apurar a extensão do vazamento de dados.

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