BRASÍLIA — As engrenagens financeiras por trás da produção cinematográfica “Dark Horse”, documentário que retrata a trajetória política e pessoal do ex-presidente Jair Bolsonaro, tornaram-se o novo foco de atenção da Polícia Federal (PF). Os investigadores analisam transações milionárias internacionais realizadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro sob a suspeita preliminar de configuração do crime de evasão de divisas.
O montante sob análise gira em torno de R$ 61 milhões (cerca de US$ 10,6 milhões). Os valores teriam sido remetidos ao exterior por meio da empresa Entre Investimentos a pedido direto do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O destino final do dinheiro foi um fundo de investimentos sediado nos Estados Unidos, administrado por um advogado de confiança da família e que atua formalmente na defesa do ex-deputado Eduardo Bolsonaro em território americano.
O Labirinto das Investigações: As Três Frentes da PF
O caso do filme, originalmente revelado por reportagens investigativas do site The Intercept Brasil, ramificou-se em diferentes frentes de apuração nos órgãos de controle e na Justiça:
As Vertentes do Escândalo "Dark Horse"
├── 💸 Evasão de Divisas ───> PF avalia se justificativas de câmbio da Entre Investimentos omitiram a real destinação.
├── 🇺🇸 Custeio Oculto ──────> Suspeita de que o fundo pagou despesas pessoais de Eduardo Bolsonaro nos EUA (Suposto Caixa 2).
└── 🏛️ Emendas e ONGs ──────> Apuração ligada ao STF (Min. Flávio Dino) sobre desvios de verba pública na produtora.
1. Operações de Câmbio sob Suspeita
A PF foca o exame nos contratos de câmbio e nas justificativas legais apresentadas pelas empresas para remeter os R$ 61 milhões para fora do Brasil. Os investigadores querem apurar se as transações utilizaram simulações ou contratos de gaveta para burlar as regras de fiscalização do Banco Central. Em nota, a Entre Investimentos alegou atuar em total conformidade com as normas do setor financeiro.
2. Despesas de Eduardo Bolsonaro no Exterior
A segunda vertente — considerada a mais sensível politicamente — apura se os recursos do filme serviram como uma espécie de “caixa dois” para custear a permanência e a subsistência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo nega as acusações, afirmando que cedeu apenas seus direitos de imagem e que vive de rendas passivas.
Caso os repasses sejam confirmados como sustento político-pessoal, o caso pode ser anexado ao inquérito de coação contra a Justiça brasileira que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). O Partido dos Trabalhadores (PT) formalizou um pedido oficial ao STF para que a conduta seja enquadrada como crime eleitoral.
3. Uso de Emendas Parlamentares
Por determinação do ministro do STF, Flávio Dino, há um procedimento paralelo para investigar o direcionamento de emendas parlamentares a organizações não governamentais (ONGs) controladas pela mesma empresária dona da produtora de Dark Horse. Suspeita-se de triangulação e confusão patrimonial com verbas do programa Wi-Fi Livre, o que levou a prefeitura de São Paulo a afastar preventivamente gerentes da SPTuris.
Cautela e Conexão com a “Compliance Zero”
Apesar da gravidade dos indícios, a cúpula da Polícia Federal adota cautela e ainda não formalizou a abertura de um inquérito exclusivo para o caso. Conforme fontes internas apuradas pelo Valor Econômico, os delegados evitam dar respostas imediatas baseadas apenas no clamor da imprensa.
O episódio do filme é tratado como um desdobramento natural e mais um fragmento do vasto material de provas apreendido na Operação Compliance Zero — ação que investiga fraudes bilionárias e levou à prisão de Daniel Vorcaro e de seus operadores em março. A corporação trabalha agora para superar barreiras de cooperação internacional com o Departamento de Justiça dos EUA para quebrar o sigilo bancário do fundo texano que recebeu os aportes do filme.






