HENAN, CHINA — O furto e o abate de um cão da raça border collie chamado Chutou, que acumulava mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais chinesas, provocou forte indignação pública na China e reascendeu o debate sobre o comércio de carne canina no país. O animal pertencia ao influenciador de viagens chinês Guo e foi vendido a um restaurante de carne de cachorro por 180 yuans (o equivalente a cerca de R$ 135), onde acabou abatido e consumido no mesmo dia.
O crime ocorreu em meados de maio na província de Henan, na região central da China, enquanto Guo realizava uma viagem internacional de produção de conteúdo na Geórgia. Durante o período, Chutou havia ficado sob os cuidados dos pais do influenciador na fazenda da família.
Dinâmica do sumiço e confronto com os suspeitos
De acordo com os relatórios policiais e registros de segurança, o desaparecimento do cão seguiu a seguinte ordem cronológica:
O sumiço: No dia 11 de maio, o pai de Guo percebeu a ausência de Chutou nas terras agrícolas da propriedade. Câmeras de monitoramento locais flagraram o momento exato em que um casal de desconhecidos colocou o animal em uma bicicleta elétrica e fugiu.
A busca: O influenciador interrompeu seus compromissos no exterior e retornou imediatamente à China. No dia 26 de maio, Guo localizou o homem suspeito de levar o cão em uma vila vizinha e chegou a oferecer uma recompensa de 10 mil yuans (cerca de R$ 7.700) pelo retorno seguro do animal.
A confissão: O suspeito admitiu ter capturado o cachorro, mas alegou que acreditava tratar-se de um cão de rua e que ele “apenas o seguiu após ser chamado”. Ele revelou, então, que já havia vendido Chutou para um comerciante de carne local.
Guo contestou a versão do suspeito de forma enfática, detalhando que Chutou usava uma coleira de identificação e um dispositivo de rastreamento via GPS no momento em que foi levado da propriedade privada.
Visita ao açougue e falta de remorso
Em uma tentativa desesperada de resgatar ao menos os restos mortais ou fragmentos de pelagem do border collie, avaliado comercialmente em mais de R$ 50 mil devido ao seu alcance digital, o influenciador confrontou diretamente o funcionário do restaurante que realizou o abate. Como resposta, ouviu do açougueiro que os restos e os pelos do animal “haviam sido jogados no lixo de forma definitiva há mais de dez dias”.
Lacunas legais e debate sobre carne canina
O caso expõe a falta de uma legislação federal abrangente de proteção aos animais de companhia na China. Pelo ordenamento jurídico do país, animais de estimação são enquadrados juridicamente como propriedade pessoal, fazendo com que conflitos e mortes sejam resolvidos majoritariamente por meio de indenizações financeiras na esfera cível.
Especialistas jurídicos locais apontam que, para o caso ser formalmente tipificado como crime de furto (cuja pena pode chegar a três anos de prisão), a polícia de Ningling precisa validar os laudos que comprovam o valor de mercado de Chutou acima do piso legal de 2 mil yuans.
Atualmente, não existe uma proibição de caráter nacional contra o consumo de carne de cachorro na China, embora o Ministério da Agricultura tenha retirado os cães da lista oficial de animais de corte em 2020. Cidades modernas como Shenzhen e Zhuhai já baniram o consumo por completo, mas em províncias do interior do país a prática ainda resiste amparada por mercados locais e tradições gastronômicas regionais.






