Rota da Ilegalidade: Madeira irregular da Amazônia entra na Europa e expõe falhas de fiscalização, denuncia ONG

Investigação da Earthsight revela que exportadora paraense abasteceu obras na Holanda mesmo acumulando multas, suspensões e condenação criminal
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BELÉM, PARÁ — Uma investigação detalhada conduzida pela ONG britânica Earthsight, divulgada no início desta semana, revelou que milhares de metros cúbicos de madeira extraída de forma irregular na Amazônia conseguiram furar o bloqueio aduaneiro e ingressar no mercado europeu. O relatório joga luz sobre graves gargalos nos sistemas de certificação verde e na fiscalização das cadeias globais de suprimentos.

O documento aponta que o material de origem ilegal foi extraído pela empresa paraense Samise, que operava sob regime de concessão na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no oeste do Pará. De acordo com as investigações, a madeira foi exportada para abastecer grandes obras de infraestrutura na Holanda.

O “Falso Selo Verde” e o Cancelamento Tardio

O ponto central da denúncia reside na fragilidade das auditorias ambientais privadas. A Samise conseguiu manter ativo o prestigiado selo internacional do Forest Stewardship Council (FSC) — amplamente utilizado por compradores europeus como garantia de sustentabilidade — a despeito de um histórico severo de irregularidades.

O Histórico de Irregularidades da Operação
├── ⚖️ Penalidades ────────> Acúmulo de multas ambientais e suspensões operacionais
├── 🧑‍ Condenação ────────> Sentença criminal na Justiça brasileira
└── ❌ Perda do Selo ──────> Certificação FSC cancelada apenas em março de 2026

Mesmo com o sinal vermelho das agências reguladoras locais, os mecanismos automáticos de mercado falharam. “A madeira investigada percorreu toda a cadeia de fornecimento e muito provavelmente chegou ao mercado europeu mesmo após suspensões e investigações”, alertou Rafael Pieroni, líder da Earthsight para a América Latina.

Resposta Institucional e Nova Lei Europeia

Diante da gravidade das infrações e do descumprimento continuado das cláusulas contratuais, o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) extinguiu em definitivo o contrato de concessão florestal que mantinha com a Samise na região.

O escândalo vem a público em um momento de extrema sensibilidade geopolítica e comercial. A União Europeia corre contra o tempo para implementar a sua nova e rigorosa regulamentação antidesmatamento (EUDR), agendada para entrar em vigor pleno em dezembro de 2026.

“À medida que a União Europeia se prepara para implementar a nova regulamentação antidesmatamento, este caso reforça a necessidade de que a diligência das empresas vá muito além da simples verificação de certificados ambientais”, concluiu Pieroni, defendendo que o bloco adote auditorias físicas e de rastreabilidade via satélite em vez de confiar apenas em papéis timbrados.

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